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Por dentro do Festival #RPG

O FoRPG foi atração durante todos os dias de evento com vinte mesas de diversos tipo de jogos de tabuleiro, incluindo o roleplaying game (RPG)

25.06.18 - 05H26 Por Luana Barros

O “Por dentro do Festival” é a sessão onde os repórteres do portal Festival Vida & Arte acompanham programações do evento e narram como foi a experiência de vivenciar atrações de música, teatro, espiritualidade, manifestações culturais, entre outras, dentro do maior festival multicultural do Brasil. A repórter Luana Barros jogou pela primeira vez Roleplaying Game, o RPG, neste sábado (23) e conta um pouco de como foi a seguir.

“Vamos jogar?” Responde, com outra pergunta, a moça para quem eu pergunto como é o jogo que ela comanda.  A minha chegada tímida, quase receosa, não combina em nada com os sorrisos e recepções dos mestres de cada uma das 20 mesas disponíveis no espaço fixo do FoRPG. Guiando cada grupo de até seis jogadores (ou seriam aventureiros?) por terras medievais ou mesmo pelo espaço sideral, naquele espaço saímos um pouquinho da realidade, e mesmo de quem somos.

Antes deste sábado (23), eu jamais havia jogado o conhecido RPG. Na infância, não conhecia ninguém que também se interessasse pelo jogo. Na faculdade, um amigo, logo que soube da minha inexperiência, tratou de me prometer uma mesa narrada por ele. Três anos depois da minha formatura, continuo no aguardo do cumprimento de tal promessa. Resolvi, então, que  arranjaria um tempinho para participar de uma das várias mesas que estão acontecendo durante o Festival Vida & Arte.

Não seria um tempinho, tenho que dizer. Ao me sentar em uma das mesas, Ricardo Menezes – responsável pela narrativa ali – explica que jogaríamos uma versão mais curta. Começando às 16hs40, iria no máximo até às 20 horas. Vem o primeiro susto: mas como assim uma versão curta tem mais de três horas? “Mas é curta mesmo, Luana. Eu já cheguei a jogar uma mesma história por meses, até anos”, me explicaria um amigo mais tarde. No momento, apenas disfarcei o espanto, tentando me fazer de mais entendida do que sou.

Se você, como eu, conhece pouco ou nada, deixe-me fazer algumas explicações. RPG é sigla para roleplaying game ou jogo de interpretação de personagens. Nele, um Mestre de Jogos é juiz e narrador de uma história onde os jogadores interpretam um personagem, partindo em uma aventura onde cada escolha que tomam terá consequências para a narrativa. A mesa que participei é de Dungeons & Dragons, um dos RPGs mais populares do mundo. “Sabe Caverna do Dragão? Foi inspirado nele”, tenta meu namorado me fazer associar o jogo a um desenho que assisti durante toda a minha infância.

Na mesa, somos eu e mais seis homens – o Mestre e outros cinco jogadores. Sou a única novata em RPG, mas alguns dos outros nunca jogaram especificamente Dungeons & Dragons. A escolha de personagens é feita e opto por Barrowin. Ela é uma anã das colinas, antiga soldada de Martin e, agora, clériga. Além do poder de cura, sua principal função dentro do grupo, ela também é excelente em defesa e tem como armas um machado de guerra, para combates corpo a corpo, e machadinhas, para atirar nos inimigos a distância.

Partimos em jornada – Ratshadow, Ulter, Alaeros, Nymmestra e Barrowin, ou seja, eu -, um grupo de aventureiros contratados como guardas de uma caravana de mercadores. Terminado o serviço, estamos na taberna apenas gastando o dinheiro que recebemos. Talon, sexto jogador/personagem de nosso jogo, está encostada no balcão, quando um menino chega avisando que uma elfa da cidade foi ferida. Talon segue o menino correndo e os outros cinco personagens seguem os dois – primeira escolha feita pelos jogadores. Do lado de fora, a elfa está deitada no chão onde é cercada por várias pessoas da cidade. “O que vocês fazem agora?” , pergunta o mestre.

Isso é só o fim da introdução dada por Ricardo Menezes para a história em que vamos embarcar. Embora eu já tivesse uma ideia sobre o jogo, não imaginava a riqueza de detalhes com que a narrativa é construída. Com dois mapas na mesa, é possível perceber como é a estrutura da cidade onde estamos – com a taverna, um mercado, o local sagrado e várias casas – e entender as localizações da região onde essa fictícia cidade está localizada. A descrição minuciosa me faz viajar até o mundo medieval e transformar-me em Barrowin de fato.

“Esquece o barulho ao redor, escuta a história e usa a imaginação”, aconselhou um amigo antes da partida. Para uma fã de literatura fantástica – leitora voraz de Senhor do Anéis, Crônicas de Gelo e Fogo, Harry Potter, dentre tantos outros livros que deixam o real para trás em busca do fantástico – não é difícil, tenho que admitir. Consigo imaginar descendo a colina ao lado dos companheiros-aventureiros a procura da carroça que nos levará a nossa aventura da vez: encontrar os goblins que atacaram a elfa, para expulsá-los dali.

Seguimos pela estrada nessa busca. Enquanto isso, um senhor de boina passa ao lado e para, tentando entender o que se passa naquela mesa.. Uma moça, parada ao lado, estica um pouco a cabeça tentando, quem sabe, ler o painel que está em frente ao narrador. Ver aquilo que só o mestre vê também é a meta de um menino que aparece por ali correndo, fica atrás de Ricardo Menezes, para logo depois correr de volta de onde tinha vindo. “Aquela mesa só tem mulheres”, ouço de uma voz que passa atrás de mim e, então, é minha vez de esticar a cabeça para tentar enxergar ao lado.

Volto ao jogo, pois é hora da primeira batalha. Quatro goblins atacam. A explicação sobre a rodada de combate é dada. Rolamos os dados para saber a iniciativa – ou a ordem de atacar. Tenho sorte de principiante e os dados parecem estar (quase) sempre ao meu lado. A não ser quando eu ataco com a machadinha, que “acerta o braço do goblin, mas ele tira e continua de pé”, descreve o mestre. Também curo Ratshadow (ou Dom Lobo, que interpretou esse personagem). Descobrimos, então, o castelo onde muitos outros goblins escondem-se. Os diálogos entre os jogadores-personagens também é um detalhe interessante dentro do RPG.

Sete horas da noite, chegamos no castelo. Hora de combate. “Não é Banco Imobiliário não”, brinca Miguel Levi (para mim Alaeros, o guerreiro grandão que está sempre a frente da batalha) quando pela décima vez, eu já vou jogando os dados. A explicação é simples: antes de jogar os dados, é necessário escolher o que fazer. Vai atacar? Se tem o poder de cura, também pode utilizar. Quem sabe até mesmo fugir ou ficar em esquiva, caso o inimigo seja forte demais. Apenas a partir daí, é possível, enfim, jogar os dados.

A minha sorte de principiante me abandona. Atacada, fico ali no morre-não-morre. “Coberta de sangue, coitada”, brincam. Dos onze pontos de vida só me restam seis. Por isso mesmo, ao entrar na sala do chefão, maior e pior inimigo da batalha, escolho por ficar ali atrás, me escondendo longe do combate corpo a corpo. As rodadas são difíceis, mas juntos conseguimos ir enfraquecendo o grande antagonista da história. Alaeros é o que desfere o golpe final. Na narração da morte do inimigo, me transporto para dentro da sala do trono e vivo o fim da minha primeira aventura – pelo mundo medieval e pelo mundo do RPG.

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